Segunda-feira, 14 de Abril de 2008

4.1.2.1. PRIMEIRO DISTRITO COM ACESSO A INTERNET SEM FIOS

A possibilidade de nos envolvermos num projecto dinamizador que estimule social e economicamente o Porto e as zonas circundantes parece-nos extraordinariamente gratificante até porque, pessoalmente, tenho algum investimento emocional nessa área geográfica e teria todo o gosto em participar em projectos que contribuam para o seu melhoramento.

No entanto, um projecto deste género e com este nível de impactos acarreta sempre dificuldades.

Os projectos de acesso sem fios, a um nível municipal, não são propriamente desconhecidos mas enfrentaram e enfrentam obstáculos de monta.

Os casos, modelos e problemas que irei referir são sobretudo norte americanos. Obviamente que muitas das condicionantes que afectaram e moldaram estes projectos não se aplicam à nossa situação.

Resumidamente encontro 5 modelos que têm sido usuais nos desenvolvimentos de acessos sem fios municipais:
- Totalmente Público
- Totalmente Privado
- Parceria Publico/Privada
- Parceria Comunitário/Privada
- Totalmente Comunitário

Totalmente Público
Neste modelo a solução é desenvolvida pelo município, recorrendo a sinergias com os recursos já disponíveis. É uma solução razoavelmente viável já que o custo de uma rede sem fios é em grande parte atribuído a custo externos (locais de colocação de antenas, custo de instalação, energia, operação) que normalmente podem ser absorvidos por outros serviços já prestados (ie: iluminação pública, semáforos, espaços publicitários, etc). Esta solução tem sido atacada de duas maneiras, por um lado os operadores de telecomunicações contestam a concorrência desleal apesar de normalmente não endereçarem os mesmos mercados, por outro, politicamente pode ser atacado pelo investimento de fundos em matérias que podem sempre não ser consideradas criticas para a actuação da câmara.

Totalmente Privado
Tem sido feitas varias tentativas de sustentar redes sem fios, abertas e grátis através de modelos publicitários, normalmente com publicidade localizada. Nos casos em que este modelo se tem demonstrado rentável verifica-se uma extensão da rede mínima, centrada em alguns serviços como cafés, bares, espaços comerciais ou desportivos. O Google tem feito algumas parcerias no sentido de viabilizar este tipo de negócios em redes mais alargadas.

Parceria Publico/Privada
Este modelo tem sofrido varias iterações mas genericamente tem sido difícil demonstrar o seu funcionamento sem um forte compromisso financeiro por parte da autarquia ou um conjunto de receitas relacionado com o serviço (eliminando a parte do acesso grátis por tanto, logo alienando grandes percentagens da população). Em muitos casos verificou-se uma baixa adesão ao serviço provavelmente porque o público-alvo (que estaria disposto a pagar) optou por serviços fixos ou móveis de terceira geração que oferecem melhores garantias de serviço com uma maior sensação de controlo pelo utilizador final.

Parceria Comunitário/Privada
Existem neste momento varias iniciativas privadas como a Fon ou a whisher, interessantemente de origem espanhola que se propõe a criar redes sem fios abrangentes, sem custo directo para o «utilizador» e ainda a conseguirem um lucro com esse serviço.

Normalmente a premissa básica da criação da rede é a partilha de tráfego com os acessos dos utilizadores. O modelo de negócio baseia-se na partilha de receitas dos não membros (que pagariam para aceder ao serviço) se bem que por exemplo a Fon é financiada pelo Google e Skype tendo em vista o acesso gratuito e desimpedido (sem registo ou outros obstáculos) aos serviços seus serviços através dessas redes.

Nestes casos a comunidade fornece o acesso à internet e a localização física (e correspondente instalação) e o privado oferece o equipamento de acesso e a gestão da rede (por vezes a monetização também).

Totalmente Comunitário
Um outro modelo com grande implementação, muito ligado ao modelo sócio-económico do software livre é o inteiramente comunitário.

Tipicamente através de associações locais, tem sido um dos principais motores de desenvolvimento de ferramentas e tecnologias de gestão para redes sem fios.

Este modelo assenta na partilha de conhecimentos técnicos e entreajuda das comunidades, bastando um ou outro membro subsidiar o acesso.

Em muitos casos, em que existem associações formais para suporte a estas entidades, o financiamento é feito via quotização dos sócios complementado com subsídios ou patrocínios. Os patrocínios são muito mais comuns em sociedades que facilitam o mecenato ou outras formas de retorno fiscal nas contribuições sociais.
Em Portugal grande parte destas redes são inspiradas no modelo da freifunk (literalmente radio livre) como por exemplo a aurenmesh da Associação Cultural Auren de Ourém.

Tendo em vista esta análise, a nossa visão assume que o máximo efeito de uma iniciativa sem fios pode só ser obtido tendo em conta uma aproximação mais global que envolva e distribua tanto benefícios como esforços por todos os participantes.

Nesta linha pensamos que uma iniciativa deste género se pode alicerçar em três pilares:

Institucional:
Integrando, em parceria com as instituições activas e envolvidas, as necessidades de comunicações de modo a capitalizar sinergias e desenvolver novas oportunidades (uma rede de comunicações viária, integrando informações de transito e integrando com o sistema de semáforos, uma rede de comunicações para serviços, por exemplo, ligando os contadores de consumo de água gás ou energia eléctrica, reportando em quase tempo real informação sobre consumos, fugas, etc).

Empresarial:
Estabelecendo pontes entre as instituições, o mercado e as universidades. Investindo localmente na criação de emprego qualificado e dinamizando o tecido envolvente.

Social:
Criando relações com associações, cidadãos e outros agrupamentos. Estimulando novas maneiras de pensar, mais participativas e mais criativas.

Penso que, por um lado, envolvendo o máximo dos actores sociais, por outro desenvolvendo aproximações inovadoras aos problemas correntes é possível transformar uma iniciativa que poderia ser à priori considerada um desperdício de recursos, numa experiência transformadora das relações sociais.

Claro que não podemos ver, nesta classe de projectos, uma salvação para todos os problemas existentes. No entanto, e especialmente numa visão continuada de médio prazo, os investimentos que colocam a população em contacto com a tecnologia trazem alterações muito positivas no tecido social.

Contributo de Ricardo

2 comentários:

Celso Guedes de Carvalho disse...

Zon e Fon querem criar 100 mil pontos de acesso à internet grátis

A Zon Multimedia e a Fon assinaram ontem um acordo que irá permitir aos clientes da empresa de telecomunicações portuguesa integrar a Fon, a maior comunidade wi-fi do mundo. À data de lançamento do projecto Zon@Fon, existem cerca de 2.500 pontos de acesso em território nacional, que integram os 250 mil pontos Fon a nível internacional. A comunidade Fon baseia-se na possibilidade de partilhar o acesso à internet com outros utilizadores Fon, em troca dos pontos de acesso wi-fi de outros utilizadores em qualquer parte do mundo e sem custos acrescidos. “Na Fon, paga-se em casa e navega-se pelo mundo gratuitamente”, resumiu Martin Varsavsky, fundador da Jazztel e agora à frente do projecto Fon. “É o conceito de partilha a eliminar o conceito de roaming”, completou o CEO da empresa que tem sede em Madrid e contou com o Google, o Skype e a British Telecom no grupo de empresas fundadoras. Já Rodrigo Costa, CEO da Zon Multimedia, sublinhou que o Zon@Fon dá “mais valor imediato aos nossos clientes, graças a uma nova possibilidade de navegar na internet. Vai mudar a forma como acedemos à internet pelo país e pelo mundo”. No prazo de três anos, a Zon espera contar com 100 mil pontos de acesso em Portugal. Os responsáveis acreditam que esta rede irá permitir explorar a nova geração de equipamentos wi-fi, como as consolas, telemóveis, PDA, aos quais se somam os computadores portáteis. Para aceder ao Zon@Fon é necessário comprar um router, que custa 39,90 euros. Até ao final do ano, a Zon Netcabo irá disponibilizar um equipamento que integra acesso à internet, wireless, telefone e um hotspot Zon@Fon.
A comunicação deste projecto vai assentar em trabalho de proximidades junto de lideres da comunidade, associações, retalho e indústria hoteleira. A partir de Setembro deverá ocorrer acções específicas em bairros de algumas cidades. A titulo de exemplo, uma acção semelhante foi realizada no bairro de Chueca, em Madrid, levando a que a Fon contasse agora com 330 pontos de acesso, um número que garante a cobertura total da zona.

Fonte: M&P, 18 de Julho de 2008

Celso Guedes de Carvalho disse...

Portugal a dois preços e duas velocidades
Um país a duas velocidades e a preços muito díspares, em termos de telecomunicações. É a perspectiva que paira sobre os diversos processos da Autoridade Nacional das Comunicações em consulta pública.

A realidade do país e das possibilidades de investimento dos operadores de telecomunicações opõem-se à Portugal Telecom (PT), ansiosa por se libertar das amarras regulatórias impostas desde a liberalização do mercado.

Em consulta pública, desde o passado dia 1, está ap ossibilidade de a futura rede de nova geração (RNG) ou de fibra óptica poder ter uma regulação diferente da actual rede de cobre, em que o operador histórico e antigo monopolista - a PT - foi obrigado a ceder a utilização das suas infraestruturas, mediante compensação financeira, a outros operadores. No dia 3, em resolução de Conselho de Ministros, foi pedida à ANACOM uma análise da segmentação geográfica, em que a PT poderia recusar a utilização da RNG aos restantes operadores nas regiões do país onde se considere que o mercado é concorrencial (zonas mais povoadas e desenvolvidas do país). Dado que apenas a PT terá capacidade para o investimento de 2 mil milhões de euros, outros operadores receiam ficar de fora. Mas nada está decidido e a ANACOM está cautelosa.

"A comissária europeia já disse que não quer monopólios e que, tendencialmente, deverá existir partilha de redes", adiantou fonte da ANACOM, recordando que a Alemanha está a braços com um processo, por ter permitido à Deutche Telecom vedar o acesso à sua RNG.

Simultaneamente, decorre uma consulta pública à análise dos mercados relevantes 4 e 5 (acesso à infraestrutura da rede da PT e fornecimento grossista de banda larga), que também aponta para um "alívio da pressão regulatória sobre a PT", ou seja, permitindo também que deixe de ser obrigada a partilhar as centrais zonas competitivas. A PT terá, também, liberdade para descer os preços nessas zonas em que, actualmente, é obrigada a vender ao consumidor final pelo menos 40% acima do preço a que vende aos operadores grossistas. Os preços poderiam, então, descer nas zonas mais desenvolvidas do país, mantendo-se a regulação no resto do território - ainda assim quase metade dos clientes de telecomunicações. Existe um limite para o preço mínimo a que a PT pode vender os seus serviços, mas o preço máximo é apenas definido pelo mercado. Onde há menos operadores, o preço sobe. É o que se depreende pela análise do tarifário SAPO (operador da PT para a internet) que a PT apresentou recentemente à ANACOM, onde os clientes de uma zona favorecida pagam até menos 148 euros por ano (telefone fixo e internet) ou menos 184 euros por ano (apenas internet).

"Não há qualquer entrave a esse tarifário, é perfeitamente possível", declarou a fonte da ANACOM. "São apenas obrigados a ter serviço em todo o país, mas não são obrigados a praticar os mesmos preços", ou seja, a info-inclusão terá sempre dois preços e duas velocidades.

Fonte: JN, 2008-07-20